Embora nas últimas semanas as mídias impressa e falada, além da internet, venham discutindo o aumento nos preços do álcool hidratado, os proprietários de automóveis bicombustíveis, que têm representado nos últimos anos mais de 90% das vendas totais nacionais, com os quais conversamos revelam, em sua maioria, grande dificuldade para utilizar as informações econômicas no momento de tomar a decisão entre abastecer com álcool ou gasolina, assim como considerável confusão no que se refere às causas determinantes do comportamento recente dos preços do álcool.
Assim sendo, resolvemos identificar as variáveis responsáveis pela elevação dos preços do álcool, bem como demonstrar matematicamente quando é mais vantajoso abastecer com álcool ou gasolina.
Os alcoóis hidratado e o anidro (aquele misturado à gasolina), bem como o açúcar são os principais derivados da cana de açúcar.
Durante o período de entressafra da cana de açúcar da região Centro-Sul, que inclui as sub-regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, representa 90% da produção nacional e vai de dezembro até o final de março é natural a elevação dos preços nacionais do álcool, pois há redução na oferta deste produto. No entanto, ainda na safra 2009/10 e na entressafra, alguns fatores foram determinantes para que seus preços subissem aproximadamente 30% em comparação com 2008, a saber: o comportamento ascendente dos preços do açúcar no mercado internacional que concorreu para o aumento da participação da produção de açúcar na destinação da cana, pois aproximadamente 65% da produção açucareira é exportada; o reduzido estoque de álcool já que, segundo o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e Lubrificantes (Sindicom), a recente crise econômico-financeira internacional levou as empresas a acumularem prejuízos para constituírem caixa, dada a queda no volume de vendas; e o expressivo nível de chuvas que interrompeu a safra na medida em que dificultou a colheita.
No entanto, nos últimos dias já é possível verificar alguns indicadores positivos que podem significar uma tendência ou não como, por exemplo, a taxa de crescimento dos preços do álcool nas usinas, enquanto que nas bombas ainda seguem com expressiva elevação. Por outro lado e com o objetivo de levar mais rapidamente os preços do álcool para um nível mais baixo e evitar o desabastecimento de gasolina, o governo federal decidiu reduzir temporariamente a parcela de álcool anidro na gasolina de 25% para 20% e suspender as exportações de derivados do petróleo, respectivamente.
Com relação à decisão entre abastecer com álcool hidratado ou gasolina, devemos considerar o ponto de indiferença, ou seja, aquele em que o menor preço do álcool é anulado pelo seu rendimento também menor. Em suma, neste ponto é indiferente abastecer com um ou outro, já que não há ganhos ou perdas. Matematicamente é calculado pela relação entre quantos km/litro percorre um carro abastecido com álcool ou gasolina. Exemplificando: Se determinado carro, dadas as mesmas condições, faz 10 km com um litro de álcool e 15 km com um litro de gasolina, o ponto de indiferença, neste caso, situa-se em 66,67%. Então, é vantajoso abastecer com álcool desde que o preço/litro do álcool em relação ao da gasolina não represente mais do que o ponto de indiferença, ou seja, caso o litro de álcool custe R$ 1,50, o litro de gasolina deve custar, no máximo, R$ 2,25.
Por fim, dadas as limitações técnicas do cidadão comum em identificar o rendimento de seu automóvel, além de que se o ponto de indiferença depende do rendimento, há outras variáveis independentes como modelo do carro, tempo de uso, entre outras, de forma geral, segundo trabalhos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP, os riscos de se tomar uma decisão errada diminui quando abastecemos com álcool hidratado até o limite de 70% do preço/litro da gasolina.
