domingo, fevereiro 03, 2013

Internação é a panacéia social?


No último dia 23 de janeiro, um jovem adolescente de 15 anos decidiu procurar o Plantão Policial de Piracicaba/SP para solicitar internação para tratamento de dependência química, patologia da qual ele acredita sofrer.

Segundo o menor, é usuário de maconha e cocaína há aproximadamente 5 meses. Seu padrão de uso é de algumas vezes na semana e como conseqüência do seu relacionamento com drogas participou de pequenos furtos e, principalmente, tem dificuldades escolares. Sua mãe está presa há 2 anos, seu pai mora em Minas Gerais. Ele mora com a avó.

O instrumento de internação, principalmente a compulsória, ou seja, aquela determinada por decisão judicial, foi uma resposta preguiçosa e ineficaz encontrada pelo Estado brasileiro para tentar resolver um problema social que ele mesmo criou quando institucionalizou o modelo de repressão ou proibição na medida em que contribuiu para a produção de drogas mais baratas como o crack e notadamente mais viciantes. Traficantes não estão interessados na saúde dos consumidores.

Para defender o procedimento, há um processo em curso de manipulação cultural e lobby por grande parte dos psiquiatras e interessados na exploração da problemática como atividade econômica de que a internação é a panacéia de um problema social. Entretanto, o modelo sugerido tem comprovada ineficácia: apenas 3% dos internados permanecem em recuperação no primeiro ano e menos de 1% passam de 2 anos.     

Existem tratamentos alternativos como terapias individuais e em grupo, grupos de ajuda e, principalmente, o trabalho desenvolvido pelos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e outras drogas (CAPS-AD) que em Piracicaba agora tem o nome de Ambulatório de Saúde Mental.

O objetivo do Ambulatório é a reabilitação psicossocial para pessoas com padrão de dependência e/ou grave comprometimento sociofamiliar. Em um primeiro momento é realizado uma triagem para a elaboração de um tratamento específico de acordo com as particularidades e realidade de cada um. Segundo informações estatísticas, pessoas com padrão de dependência considerado grave tiveram resultados melhores com este tipo de tratamento.

 Estudos apontam que a estrutura cortical frontal de nosso cérebro responsável pela tomada de decisões funciona de forma a eliminar conflitos e, por conseqüência, acaba escolhendo o caminho mais fácil. A filosofia sugere que, em grande medida, a sociedade é a manifestação da individualidade da natureza humana. Por isso, geralmente a sociedade tende a decidir como o indivíduo.

Expor este jovem de 15 anos que usa drogas há 5 meses a uma clínica pode trazer conseqüências extremamente negativas para a formação de sua personalidade como agressões físicas em alguns casos, resultados psicológicos e provavelmente contato com dependentes mais graves e o conseqüente interesse por drogas mais destrutivas como depoimentos comprovam.

A sociedade brasileira se sente assediada pela possibilidade de atacar as conseqüências ou efeitos de nossos problemas quando precisamos nos preocupar com as razões ou causas. A internação pode parecer a panacéia do ponto de vista social já que retira dependentes das ruas concorrendo para o processo de limpeza social. Todavia, isto não resolve o problema do ponto de vista individual. Estamos lidando com pessoas, não animais. É fundamental abandonar a preguiça intelectual e cognitiva, procurar respostas inteligentes e priorizar políticas públicas mais eficazes, além é claro da descriminalização.

Ewerton Clemente é economista, servidor público da Câmara Mun. 
de Rio das Pedras e autor do blog

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